Quando o Porta dos Fundos decidiu testar um novo formato, não existia exatamente um plano. Havia uma lacuna de grade, dois criadores com uma química evidente e uma ideia simples de sentar e conversar.
O que veio depois foi um dos movimentos mais relevantes de expansão de audiência da marca nos últimos anos: ao chegarem ao Spotify, o Porta descobriu um público novo e altamente engajado.
O impacto foi para além da plataforma: "Em um ano, vimos a participação feminina na audiência total do grupo crescer 8%, somando todos os nossos canais, e isso sempre foi um objetivo importante pra gente no Porta. Contar com o Spotify como parceiro foi fundamental nesse crescimento, apoiando o projeto desde o primeiro episódio publicado”, diz Ana Gondolo, Head de Operações e Portfólio do Porta dos Fundos.
O Não imPorta nasceu em fevereiro de 2025 com uma proposta simples: colocar os amigos Gregório Duvivier e João Vicente de Castro para bater papo, sem nenhuma rigidez ou preocupação de construir um “formato ideal”, mas partindo da conversa como ela acontece.
"Acho que a mágica, se teve alguma, foi justamente não tentar ‘fazer um podcast", diz João Vicente. "O Não imPorta nasceu muito da conversa como ela é de verdade, com humor, com desvio, com intimidade."
A química entre Gregório e João Vicente, construída ao longo dos anos, apareceu sem filtros. E mesmo existindo pauta, muitas vezes ela é abandonada no meio do episódio, dando lugar a conversas que se estendem por quase uma hora sobre temas que vão do cotidiano à política, passando por paternidade, tendências virais ou qualquer assunto que surja organicamente.
O formato permitiu que os apresentadores mostrassem um lado mais reflexivo e sensível, algo que não aparece com tanta força nos esquetes tradicionais. "Acho que tem um pacto de sinceridade entre a gente que é gostoso de ver. A gente tem um nível de intimidade que consegue ser muito íntegro e transparente um com o outro", comenta Gregório.
Quando a conversa vira companhia
Com o lançamento dos episódios, essa naturalidade foi gerando identificação imediata. Inúmeros comentários indicavam que o Não imPorta passou a acompanhar a rotina das pessoas: no treino, no trânsito, no almoço… Como resume João Vicente, "hoje o consumidor de podcast não quer só informação ou tese, quer companhia. Quer sentir que está entrando numa conversa em que pode ficar."
O formato longo criou conforto. A pausa, o tempo de pensamento, o improviso e a continuidade reforçaram a sensação de companhia. A conversa avança sem pressa, essa dinâmica gerou fidelidade e expectativa, com 68% do público voltando semanalmente para o feed. Gregório dá sua visão sobre essa experiência:
"Eu sinto que o público se apega à conversa, mesmo que ela não tenha rumo. Ou talvez por isso mesmo. Tudo pode acontecer, tudo pode ser dito, e a gente se deixa levar."
Essa inserção do podcast no cotidiano é um dos pontos-chave dessa proximidade, já que o consumo no Spotify acontece em paralelo à vida real e isso muda o tipo de vínculo criado. "O Spotify é um app que já está dentro da vida das pessoas", reforça. "Certamente ajudou o público a inserir o podcast dentro da sua rotina."

Os sinais de uma comunidade engajada (e uma surpresa)
Ao longo do seu primeiro ano de vida, o Não imPorta consolidou uma comunidade fiel. Piadas internas, referências recorrentes e personagens dos bastidores passaram a integrar o universo do programa. A audiência reconhece esses elementos, antecipa referências e comenta com familiaridade. João Vicente fala de como essa retenção se conecta diretamente com a proposta do formato: "Podcast hoje disputa um lugar muito íntimo da vida", resume. "Quando vira hábito, muda tudo."
“A gente percebe que o público não está só passando pelo episódio, ele está ficando, criando vínculo, acompanhando raciocínio, entrando na dinâmica da conversa. E isso é muito valioso. Tem muito feedback de gente comentando detalhes do fim do episódio, retomando uma frase, um assunto, uma virada específica. Isso mostra uma escuta muito atenta e muito fiel.”
Um dos dados mais curiosos veio da distribuição da audiência. No Spotify, o Não imPorta registrou forte adesão do público feminino, que hoje representa 69% da audiência. Esse é um contraste com a base historicamente mais masculina do Porta dos Fundos em outras plataformas.
"Especialmente com o público feminino existe uma identificação com esse espaço de escuta mais cotidiano, menos performático", diz João.
Internamente, essa mudança abriu espaço para a criação de projetos voltados para mulheres, algo que já era desejado há anos. Externamente, ampliou a percepção do Porta como marca capaz de dialogar com outros segmentos e comunidades.
Novas dinâmicas de monetização
O formato também trouxe mudanças na forma de integrar marcas. As inserções passaram a acontecer de maneira mais orgânica, acompanhando o fluxo da conversa. Isso criou espaço para parcerias mais alinhadas com o contexto dos episódios, e ao tipo de consumo que o podcast propõe.
E se o formato criou conexão, foi o Spotify que amplificou esse movimento. "O Spotify teve um papel central, porque não foi só uma plataforma de distribuição”, afirma João Vicente. “Ele ajudou a inserir o conteúdo na rotina das pessoas", diz.
A experiência consolidou uma visão estratégica: criadores não pertencem a uma única plataforma. Cada ambiente oferece um tipo de consumo e uma relação específica com o conteúdo. E o sucesso no Spotify foi acumulando marcos: ao fim de 2025, o Não imPorta já era uma das estreias de podcasts mais bem sucedidas do ano.
O que o formato revela, e os próximos passos do Não imPorta
O Não imPorta acabou funcionando também como um teste de linguagem. Para o Porta dos Fundos, foi uma forma de explorar um formato mais longo, mais aberto e menos baseado em performance. Para o público, uma nova forma de acompanhar os criadores.
Para 2026, o foco passa a ser entender como aprofundar essa relação. A equipe estuda possibilidades como experiências ao vivo, conteúdos especiais e iniciativas voltadas para quem já acompanha o programa de forma recorrente.
Eles querem ir além de escalar o formato, observar como essa comunidade continua evoluindo, sempre atentos ao que ela pede a partir daqui.
